Um herói sem nenhum caráter

Um livro de pura brincadeira. Foi nesses termos que o poeta multitalentos Mário de Andrade se referiu a Macunaíma, no prefácio escrito para o lançamento da obra, em 1928. Antes já teria afirmado: “é um livro de férias escrito no meio de mangas abacaxis e cigarras de Araraquara, um brinquedo”. E esse brinquedo se tornaria um dos principais ícones do Modernismo, o movimento que teve seu ápice na Semana de Arte Moderna, de 1922, e que propunha uma nova forma de expressão artística.

Macunaíma é, provavelmente, um dos livros mais conhecidos – e menos lidos – da literatura brasileira. Sempre que alguém o citava, vinha-me à mente a imagem do ator Grande Otelo sendo parido, ao interpretar o personagem no filme de mesmo nome. E era só. Confesso que nunca consegui assistir ao filme inteiro e evitava o livro, talvez pela quantidade de teses enfadonhas que estudiosos de plantão criaram em seu entorno e pelas opiniões de leitores parecidos comigo, que consideravam a leitura “difícil”. Mas, há um mês, criei coragem. Li.

E já nas primeiras páginas ajustei minhas expectativas. Decidi que, para mim, Macunaíma não era romance, como o autor nos fez crer, mas poesia. E talvez tenha sido essa a confusão que levou leitores a considerar difícil a leitura, por não terem encontrado na obra a estrutura que esperavam de um romance. Olhado como romance, é de um nonsense total, e o leitor poderia até duvidar da sanidade mental do autor. Olhado como poesia, admirado “estrofe” a estrofe, frase por frase, palavra por palavra, é genial. Uma deliciosa salada de brasilidades.

Por meio de lendas indígenas – adaptadas à moda do samba do crioulo doido -, usando linguagem simples e sonorizada (“música mesmo”, na própria opinião do autor, que também era músico) e uma profusão de ditados populares e chavões da época, Mário construiu seu “herói sem nenhum caráter” que, desconfio, tinha como intenção atribuir um caráter ao povo brasileiro, povo que, segundo ele, não possuía “nem civilização própria nem consciência tradicional”. Não, nunca acreditei que Mário de Andrade tivesse escrito e publicado Macunaíma por brincadeira. O livro é sério! Mas deve ser lido brincando.

Mário de Andrade descobriu Macunaíma na obra do alemão Koch-Grünberg (sim, ele falava alemão!) e, com base nela, construiu seu poema durante as férias em uma fazenda de Araraquara. Disse que o fez em seis dias, mas nada indica que tenha descansado no sétimo dia. A obra foi revista várias vezes e publicada só dois anos depois. Uma obra-prima! A mesma que fez o grande Antônio Cândido – falecido recentemente – declarar um dia: é o livro que eu gostaria de ter escrito.

Conclui a leitura, mas não devolvi o livro à estante. Assim como faço com livros de poesia, deixei-o por perto, para me deleitar com algum daqueles poemas de vez em quando. E sorrir também.

Mário Raul de Moraes Andrade nasceu em 9 de outubro de 1893 em São Paulo, onde morou a maior parte da vida. Estudou – e depois lecionou – no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. Tornou-se especialista em história, arte, folclore, etnografia, música, poesia e literatura. Seus livros mais famosos são Losango cáqui, Clã do jabuti, Amar, verbo intransitivo, Pauliceia desvairada e Lira Paulistana. Morreu em 25 de fevereiro de 1945, aos 51 anos de idade.

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