Ter um Governo assim? É muita zica!

No começo, o anúncio do novo vírus virou piada pela coincidência com a zica daqui, a gíria que alguns usam para azar ou maldição. Zika? É muita zica. Hoje, com a suspeita dos males que o vírus pode causar e com as preocupações ganhando proporções mundiais – Brasil no centro do problema -, a piada perde a graça. E passa a ser brincadeira de mau gosto, quando nos lembramos que o vetor da Zika é o Aedes Aegypti, o mesmo que frequenta nossos verões há décadas, distribuindo dengue democraticamente em todos os Estados.

Fui verificar os dados históricos da dengue e descobri que ela faz vítimas por aqui desde o Século XIX, mas que, por volta de 1930, desapareceu junto com o Aedes, praticamente dizimado pela campanha nacional contra a febre amarela (naquela época, o Aedes era o principal vetor da febre amarela). A partir de 1980, porém, o Aedes trouxe a dengue de volta e, devagarzinho, foi expandindo sua atuação. De lá para cá, milhares de brasileiros contraem dengue anualmente, mas os números que me chamaram a atenção foram os do Rio de Janeiro em 2008: 250 mil casos de dengue e 174 mortes em decorrência dela. Sete anos depois, em 2015, São Paulo registraria 500 mil casos. Quando li esses números, não pude evitar uma comparação imaginária: qual teria sido a reação de um governo de primeiro mundo – EUA, por exemplo – se lhe fossem apresentados números parecidos sobre o país dele? Certamente, não a reação dos nossos governos – Federal, Estadual e Municipal – que, na verdade, nem reagir, reagem, mas apenas assistem ao flagelo e torcem. No entanto, nem sempre foi assim (vide citação do ano de 1930, no início do parágrafo).

Foi quando o Governo brasileiro, depois de um surto de febre amarela no RJ (em 1928), decidiu empreender uma ofensiva nacional contra o Aedes Aegypti. Daria para imaginar como foi tal campanha? A população brasileira era bem menor, sim (60 milhões), mas nossa área territorial era a mesma e não havia boas estradas, aeroportos, televisão. A comunicação era precária, tínhamos poucos telefones, poucos jornais de abrangência nacional, nada de internet, Facebook, WhatsApp… Consta que a população – de maioria analfabeta e desconhecedora do que acontecia – era “hostil” à ação dos agentes de saúde do governo e muitas vezes impediam o trabalho deles. Deve ter sido uma dureza… Mas obteve sucesso! E a fórmula não poderia ser mais óbvia: análise aprofundada do problema, planejamento e ação coordenada dos Governos.

Poderíamos repetir a dose hoje, não poderíamos? É claro que sim! Se tivéssemos como governantes líderes verdadeiros e realmente interessados no bem estar da população. As ações, obviamente, seriam bem diferentes das empreendidas na década de 30, mas bem menos complicadas, já que no século XXI a comunicação é nosso ponto forte. Mas, a propósito, você seria capaz de imaginar, por exemplo, Dilma, Alckmin (que é médico, viu?) e Haddad decidindo, juntos, uma campanha de combate à Zika e à Dengue em São Paulo? Com o apoio abalizado do nosso Ministro da Saúde (de quem eu não me lembro o nome)? Seria? Eu, não. Minha imaginação não vai tão longe. E olha que eu sou bom em imaginar…

Se, lá na terra do Tio Sam, depois de 2 ou 3 casos de Zika, o Obama já foi ao Congresso pedir autorização para investir US$ 1,8 bi no combate à doença, aqui, no Brasil, resta a cada um de nós continuar cuidando da própria água, e, infelizmente, apenas esperando que o Governo faça algo. O dos Estados Unidos, bem entendido.

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