Submeter-se a Lei ou comprar uma bike?

Vou comprar uma bicicleta. Ou melhor, uma bike (em inglês soa mais cool, não?). Pois é, vou comprar. Uma bike baratinha e que há muito eu penso em comprar, mas só não o tinha feito ainda porque não havia entendido os benefícios ocultos de ser dono de uma. E a revelação deu-se na Avenida Paulista, em um domingo ensolarado.

Moro na região e, aos domingos, costumo exercitar o esqueleto dando minhas corridinhas pela Avenida, um hábito antigo, praticado desde os tempos em que a via não era interditada para automóveis e aceitava humanos de todos os tipos e a todo momento, em qualquer meio de transporte. Não, não sou contra a proibição de carros aos domingos. Acho até bacana. A Avenida transforma-se em um grande play-ground repleto de crianças, cachorros, artistas de rua, gente correndo, andando, conversando. Como não gostar? É lá que passo as manhãs de domingo. E foi lá que compreendi os poderes da bike. Explico.

Na parte central da Avenida existe uma ciclovia – aquele longa cicatriz vermelha que tomou o lugar do tiquinho de verde que ainda havia por ali – que, obviamente, destina-se ao trânsito de ciclistas. Aos domingos, a Prefeitura demarca também outras duas faixas do asfalto, a título de “ciclofaixas”. Faixas destinadas a quem? Claro, à turma dos ciclistas (para a qual pretendo entrar). Ao trânsito e à diversão dos pedestres sobram as calçadas e uma faixa do asfalto em cada lado da avenida. Uma divisão indispensável à segurança de todos os frequentadores.

Então, lá estou eu, feliz da vida em meu trote dominical sobre a pista de rolamento, na faixa destinada aos pedestres. De repente, uma bike vem de encontro, e eu sou obrigado a saltar de lado para evitar o choque. Olho de novo e confirmo: estou, sim, sobre a faixa destinada aos pedestres. Continuo correndo, ainda feliz. Mais à frente sou forçado a dar um tempo para que um bando de ciclistas distraídos passe por mim. Peraí! Ali não era faixa de pedestres? Mas ninguém parece se incomodar com bicicletas circulando por todos os lugares. Decido, então, fazer um teste, e transfiro meu trote para a ciclofaixa. Já na esquina seguinte, uma fiscal da Prefeitura interrompe-me e me orienta a sair dali “para evitar acidentes”. Era preciso retornar à “minha” faixa (lembre-se, ainda não sou um ciclista). Volto e continuo correndo, desviando-me de uma ou outra bicicleta pelo caminho. Vou até o fim da avenida, dou meia volta e inicio o retorno, agora pelo outro lado. Mais do mesmo, e atenção redobrada para não ser atropelado por uma bike. Mas ninguém reclama por elas circularem fora de suas faixas. Intrigado, resolvo levar meu teste ao limite e passo a correr sobre a ciclovia, a cicatriz. Nem precisaria dizer que não consegui dar mais que alguns passos, precisaria? E nem foi preciso um fiscal para impedir-me de continuar por ali. O primeiro ciclista que passou por mim encarregou-se de me apontar a via de pedestres e me expulsar de lá. Da ciclovia passei para a calçada, e fui assim até o fim, não sem ter que desviar de vários ciclistas que passeavam também por ali. Sobre a calçada! Corrida concluída, esbaforido, sentei-me no meio-fio e fiquei lá, descansando e observando o movimento. E vendo um monte de ciclistas circulando sobre calçadas e faixas para pedestres, alguns quase atropelando os marronzinhos da CET – aqueles fiscais de trânsito, implacáveis com motoristas, mas que estranhamente não enxergam ciclistas. E o fenômeno não se dá apenas aos domingos. Nos outros dias da semana a atitude dos fiscais é a mesma. Ou eles não se importam, ou as bikes adquiriram o poder da invisibilidade, versão em duas rodas da capa do Harry Potter. Foi então que a ficha caiu.

Compreendi que andar de bike é considerado politicamente correto e que a Sociedade é tolerante e condescendente com tudo o que é politicamente correto. Como criticar alguém que se acha instalado sobre uma bike, uma unanimidade? Talvez seja por isso que pedestres, ao escalarem uma bike, passem a experimentar sensações de pertencer à uma grande tribo, a tribo dos ciclistas, uma tribo do bem. Uma turma que detém direitos especiais e cujo comportamento no trânsito pode flutuar acima dos regulamentos feitos para meros mortais, como um tal Código Brasileiro de Trânsito. E é uma tribo unida que, quando perde membros por atropelamento, homenageia-os com passeatas e com a fixação de bicicletas brancas nos locais, monumentos para fazer lembrar a todos que ali um ser humano – montando uma bike – perdeu a vida. Diferente do que ocorre aos demais seres humanos que, sem bikes ou tribos, são atropelados e ninguém dá a mínima. Nada de homenagens, nada de passeatas, nem de sapatos brancos. Nada.

Está decidido! Vou comprar uma bike e entrar para a tribo dos ciclistas. Quem não quer fazer parte de uma tribo dessas? Porém, mesmo sabendo que depois de ter a minha bike não mais precisarei me preocupar com regras de trânsito, fui lá, ao CBT, rever as referências que faz aos ciclistas. Li o Artigo 58, que diz que bicicletas – o CBT estranhamente não as chama de bike -, onde não houver ciclovia ou ciclofaixa, devem transitar pela beirada do asfalto, no mesmo sentido dos carros. Como a Avenida Paulista tem uma ciclovia – a cicatriz – e aos domingos tem também as ciclofaixas, o trânsito de bikes só pode ser feito por elas. Já o Artigo 68 diz que faixas de pedestres são apenas para pedestres, mas que ciclistas “desmontados” equiparam-se a pedestres e as podem utilizar. Duas regras que, ao comprar uma bike e me tornar politicamente correto, poderiam ser ignoradas impunemente, mas cuja leitura trouxe-me uma espécie de remorso antecipado, e uma dúvida sobre a conveniência de entrar ou não para a tribo. A dúvida, porém, dissipou-se logo em seguida, ao ler o artigo 24 do CBT. Permita-me transcrevê-lo:
“Art. 24. Compete aos órgãos e entidades executivos de trânsito dos Municípios, no âmbito de sua circunscrição:
I – cumprir e fazer cumprir a legislação e as normas de trânsito, no âmbito de suas atribuições;
II – planejar, projetar, regulamentar e operar o trânsito de veículos, de pedestres e de animais, e promover o desenvolvimento da circulação e da segurança de ciclistas; …”

Sacou? Não há menção sobre promover a segurança dos seres humanos sem bikes, os que ainda teimam em permanecer na condição de pedestres ou de motoristas. Órgãos de trânsito só precisam promover o desenvolvimento da segurança de… ciclistas!

Vou já, comprar a bike!

(esta crônica foi originalmente escrita em 02/2016)

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