Para ler por puro prazer…

O próprio Machado de Assis – em seu prólogo à quarta edição do livro – relatou que Capistrano de Abreu perguntara à época: Memórias póstumas de Brás Cubas são um romance? A pergunta – feita nos estertores do Século XIX – fazia sentido. A história contada por Machado fugia a todos os padrões da literatura de então. Que livro ousaria ter como narrador um defunto? Que escritor sério se aventuraria a começar o primeiro capítulo com o narrador hesitando se “devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte”? E o que dizer da dedicatória: “Ao verme que primeiro roeu as carnes frias do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas”? Pelo que se fazia em literatura até então – narrativa linear e tempo histórico -, Capistrano não poderia mesmo adivinhar que aquele livrinho não seria apenas “um” romance, mas “o” romance. E que, depois, viria também a ser aclamado precursor do realismo mágico e do modernismo no País.

O livrinho de Machado de Assis, porém, não se contentaria em ser apenas marco para a literatura nacional. É também leitura absolutamente deliciosa. Crítica social, alguma crueza, ironia, humor, conquistaram leitores desde o lançamento, e não param de conquistar. Recentemente, o cineasta Woody Allen revelou considerar Memórias póstumas de Brás Cubas um dos quatro melhores livros que já leu, e um dos que mais o influenciaram. “Fiquei chocado com como ele era charmoso e divertido. Não acreditava que tivesse vivido em época tão distante. Você pensaria que foi escrito ontem. É tão moderno e prazeroso, uma obra muito, muito original”, justificou Allen. E nem precisaria.

De minha parte, já li Memórias póstumas de Brás Cubas duas vezes. Vou ler de novo…

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5 comentários em “Para ler por puro prazer…

  • 29/01/2016 em 02:13
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    Excelente Osmar! Parabéns! Objetivo, coerente e extremamente verdadeiro!

    Além disso, cumpriu o que prometeu “ler por puro prazer”. E aproveitando a deixa, te pergunto se você está familiarizado com outro tipo de literatura, bem mais underground, prá não dizer “marginal”… A geração BEATNIK. Não sei se é sua praia, mas deixo-lhe uma provocação: se arrisca escrever sobre “On The Road” de Jack Jerouac?
    Abraço.

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  • 29/01/2016 em 13:27
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    Machado de Assis, se vivo, curtiria e compartilharia no FB seu artigo…

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  • 29/01/2016 em 19:49
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    Gilberto, estou com On the road na agenda, mas ainda não o li. Vou cumprir o planejado ainda neste semestre. Então, voltarei com algo sobre ele. Desafio aceito!

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  • 25/02/2016 em 01:07
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    Memórias Póstumas de Bras Cubas foi a melhor descoberta literária em minha vida. Lembro do prazer e surpresa que a leitura me trazia. Ainda nos primeiros anos do curso de Letras, Machado tornou-se, então, uma obsessão. Inesquecível a sensação de descobrir um livro, de abrir a primeira página e se deparar com o requinte do humor e da crítica ferina de uma autor como Machado de Assis. Um desses momentos em que ficamos felizes de ser brasileiros. Fechar a última página foi como ter sido apresentada,para sempre, a um companheiro, um ídolo do qual jamais me separaria. Bom lembrar de tudo isso. Obrigada.

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  • 24/05/2016 em 20:58
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    Grande Osmar, tenho lido e relido, por pura diversão, o Machado de Assis. Coincidência, sem saber dos comentários do Woody Allen, comentei com meu filho recentemente que a incrível semelhança entre os dois!
    Já pensou que a história do Alienista poderia bem tratar de políticos ao invés de loucos?

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