O risco de morte do jornalismo

Hoje, ao ler o jornal, fiquei sabendo que o filho de um político foi baleado durante um assalto, mas não corre “risco de morte”. Tão logo cheguei ao fim da frase e me deparei com o tal “risco de morte”, imediatamente o jornalista – que eu nem sei quem é – desceu vários degraus na minha escada de avaliação do jornalismo.

Não que ele esteja errado ao adotar risco de morte como risco de morrer, mas porque me pareceu que o dito profissional da escrita é daqueles que têm medo do “risco de vida” e, fugindo dele como o diabo da cruz, deixa de lado a beleza – e por que não dizer a correção? – da expressão ancestral, risco de vida. Medo de passar vergonha que o faz passar vergonha.

Risco de vida não é incorreto, como querem alguns professores que sonharam ter inventado a língua, e já foi defendido veementemente por outros professores, talvez insones. Também desperto – mas consciente dos meus parcos conhecimentos gramaticais e de linguística -, não ouso entrar nessa briga. Apenas me reporto à produção de grandes autores – Eça, Machado, Alencar e outros – que usavam risco de vida sem medo dos riscos. E comparo o uso da expressão risco de vida a riscos similares, que não amedrontam jornalistas.

Por exemplo, li em uma súmula financeira, dia destes, que determinado investimento estaria sujeito a “riscos de mercado e de governo”. Compreendi – como qualquer um compreenderia – que risco de mercado se referia, em última instância, à possibilidade de o mercado vir a quebrar, e risco de governo à possibilidade de o Governo dar calote. Seguindo a lógica de raciocínio, risco de vida se referiria à possibilidade de perder a vida. Já risco de morte, à possibilidade de… sei lá, ir para o inferno, talvez? Na hora, lembrei-me dos jornalistas amedrontados.
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