O cassino e o santo do pau oco

No Brasil – que demoniza cassinos, mas tolera bingos, exalta bicheiros e promove lotéricas – o processo de arrecadação e distribuição de riqueza no setor de jogos (ou jogos “de azar”, como querem alguns) imita o que ocorre no restante da Sociedade. O pobre e o miserável são convidados a contribuir com seus parcos reais, testando o azar em jogos de todos os tipos, desde raspadinhas – vendidas nas lotéricas a míseros R$ 0,50 – até a Mega-sena, passando por bilhetes da Loteria Federal, Lotofácil, Timemania, Loteca, Dupla Sena, Instantânea, Lotomania, Lotogol, Quina. Tem aposta para qualquer bolso, e seus valores iniciais são fixados para capturar até o mais pobre dos pobres. E, semana após semana, milhões de reais são drenados dos esperançosos para os cofres do Governo.

Um estudo divulgado pela CEF mostrou que mais de 40% das apostas são feitas por pessoas que ganham menos de 2 mil reais por mês. Do total arrecadado com loterias, aproximadamente 68% ficam com o Governo. O que sobra – mais ou menos 32% – é distribuído a alguns poucos felizardos. Política de distribuição de renda para ninguém botar defeito… Mas essa é apenas a parte legal da história.

Além das loterias administradas pelo Governo, no Brasil existem ainda bingos ilegais – os preferidos pelas velhinhas aposentadas -, máquinas caça-níqueis espalhadas por aí e, para os saudosistas, jogo do bicho. Seus aficionados, como não poderia deixar de ser, pertencem às classes mais pobres da população, e o dinheiro que deixam lá é destinado aos donos dos negócios e à vista-grossa de autoridades.

Mas, por que só brasileiro pobre aposta nesse tipo de jogo? Ricos não podem jogar? Claro que podem. Mas jogam? Claro que não. Basta observar a composição das filas que se formam nas lotéricas todos os dias. Rico não passa nem perto. Isso não significa, porém, que gente endinheirada não goste de um joguinho. Gosta sim, mas prefere praticá-lo em locais mais seguros que os nossos bingos clandestinos e mais aprazíveis que filas das lotéricas. E o mundo está cheio deles. Então, nossos ricos viajam para países como EUA, Alemanha, Cingapura, Suiça, Itália, França, Portugal, Espanha, Canadá… E se esbaldam em cassinos luxuosos, regulamentados, fiscalizados e seguros. Assim, enquanto nosso Governo caça niqueis oferecendo filas de lotéricas aos pobres, governos de outros países enchem as burras oferecendo diversão de alto luxo para brasileiros que podem pagar.

E por quê o Brasil não segue o secular caminho trilhado pelos países do Primeiro Mundo e permite que cassinos sejam instalados também por aqui? Porque – dizem – os cassinos poderiam ser utilizados para lavagem de dinheiro, e os nossos políticos – os responsáveis por manter a proibição de cassinos – são extremamente avessos à qualquer atividade que possa ensejar comportamentos ilegais. Além disso, o povo brasileiro é respeitador e preza os bons costumes; e o Brasil, um país moralista e protetor da família, que jamais aceitaria que seus cidadãos fossem induzidos ao “vício” do jogo. Bacana! Sempre que ouço esse tipo de discurso, meu peito chega a estufar de orgulho. Esqueço-me até das nossas igrejas, que podem ser instaladas por qualquer um e arrecadam volumes gigantescos de dinheiro, sem passar recibo e sem qualquer controle das autoridades. Esqueço-me também que nossas escolas de samba realizam desfiles nababescos (certamente bancados com dinheiro caído do céu), e que nossos partidos políticos bancam campanhas eleitorais onde caixa dois e lavagem de dinheiro são expressões proibidas. No entanto, a propósito dos nossos bons costumes, finjo que o Brasil é conhecido mundialmente como produtor de telenovelas ingênuas e como o país do carnaval familiar, que não tolera qualquer prática de prostituição infantil. Esqueço-me de tudo o mais e mantenho o peito estufado. Não demora, porém, para que alguns questionamentos me fisguem, levando meu orgulhoso peito a murchar novamente.

Em qual livro sagrado está escrito que jogos operacionalizados por entidades não governamentais ferem a moral e os bons costumes, mas os bancados pelo Governo, não? Em qual país, dentre aqueles que permitem a operação de cassinos, houve um escândalo de corrupção ou de lavagem de dinheiro que chegasse aos pés de um Petrolão? Já de peito murcho, a sensação passa a ser de orelhas crescendo ao constatar que todos aqueles países são ricos, e que continuam enriquecendo e absorvendo recursos de países como o nosso, subdesenvolvidos, que não se ocupam da camada mais abastada da população e se dedicam a esfolar os pobres, e o fazem alegando homenagear a moral e os bons costumes.

Que bons costumes seriam esses, minha gente?

Entretanto, há um novo projeto de lei tramitando no Congresso que pode nos conceder um bafejo da inteligência e da moral primeiro-mundista. Acompanhemos o seu desenrolar…

>> Para ler sobre outros, vá à página inicial ou à coluna lateral.

Siga-me!twitter
Facebooktwitterlinkedin<= Gostou? Compartilhe com seus amigos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *