Nem em sonho o Brasil é sério.

Na madrugada de domingo, já na cama, dei aquela última olhadinha no Twitter antes de dormir e encontrei a célebre e repetidíssima frase atribuída a Charles de Gaulle, “o Brasil não é um país sério”. Li, não achei graça, desliguei o celular e dormi. Acordei com o sol já alto e lembranças distantes de um sonho. Nele, o jornalista Alexandre Garcia preparava-se para entrevistar o General De Gaulle acerca da polêmica frase. Levantei, tomei café e, duas horas depois, restos do sonho ainda permaneciam na mente. Resolvi, então, botar no papel o que lembrava, antes que se apagasse de vez.

E por que Alexandre Garcia? Sei lá, não fui eu quem montou o cast do sonho, mas imagino que o subconsciente o tenha escolhido por considerá-lo o típico brasileiro inconformado, um jornalista da gema, daqueles que as faculdades não produzem mais e que possuem olhar arguto, precisão no uso da palavra e disposição para denunciar e confrontar, educadamente e com espirituosidade.

Alexandre Garcia vai entrevistar Charles de Gaulle. Se bem que, pensando bem, talvez não fosse de bom tom misturar gente viva com gente morta. Gente viva poderia não gostar… Mas, e se o sonho foi assim? Era o gaúcho Alexandre a entrevistar o francês, em nome dos demais brasileiros. Substituí-lo por um entrevistador do outro mundo? Não, isso desvirtuaria o sonho. Mas, e se esse habitante do outro mundo fosse alguém também admirado, do tipo Stanislaw Ponte Preta ou equivalente? Lembra-se dele, o Stanislaw? Também brasileiro da gema, jornalista, crítico; e defunto. Poderia até ser um bom substituto na reconstrução do sonho. Se eu o tivesse visto algum dia, mas isso não aconteceu. E como criar uma imagem mental com um ser que foi, para mim, tal qual o caviar do Zeca (nunca o vi e dele apenas ouvi falar)? Só se desse asas à imaginação e adaptasse a estória, inventando um entrevistador híbrido, imagem e voz do Alexandre, script do Stanislaw. O espírito do Stanislaw baixou no Alexandre e lá foram eles para a entrevista com o General. Melhor ainda: Stanislaw em sua versão Sérgio Porto.

A entrevista ainda não começou. Câmeras e microfones estão ligados, mas em “off” (sim, você entendeu, ligados e em off, porém não ria ainda, que o assunto não é esse), e o que rola é aquele bate-papo prévio em que o jornalista situa o entrevistado e o prepara para a entrevista. Sérgio Porto – com a estampa do Alexandre Garcia – comenta com o entrevistado que pretende começar perguntando acerca da famosa frase. E De Gaulle concorda, em seu francês irretocável e formal (que eu sequer consigo imaginar como seria, já que não falo francês): “Sem problemas. Vai ser até bom para esclarecer essa estória de uma vez por todas. Eu jamais diria semelhante asneira acerca de um país, mesmo que se tratasse de um inimigo, o que não é o caso”.

Stanislaw percebe, então, que o General, falando daquele jeito, iria transformar a entrevista em algo tão agradável quanto um memorando oficial, e decide quebrar o gelo, dar algum requebrado à cintura dura do homem. Para descontraí-lo, estica a conversa e passa a contar ao experimentado estadista algumas peculiaridades da nossa Pátria. Diz que, por aqui, políticos corruptos, quando acuados, fogem da primeira instância e fazem de tudo para serem julgados pela Suprema Corte. Ao que De Gaulle indaga, surpreso: “Mas isso não seria o mesmo que pular ao fogo para fugir do calor da frigideira?” “Seria”, concorda Stanislaw, “mas, no Brasil, fogo não é tão quente quanto frigideiras”.

O entrevistado faz cara de quem não entendeu, e o jornalista prossegue em sua estratégia de relaxamento. Conta que o melhor da nossa democracia é que nós temos três poderes independentes, embora a cúpula do Judiciário seja nomeada por indicação do Presidente da República e submetida à aprovação do Senado.
“Sério?”, desconfia o General.
“Pois é… E certa vez um Presidente do Senado foi denunciado por corrupção – uma história sobre bois – e teve que renunciar ao cargo para não ser cassado, mas, depois, candidatou-se e foi eleito novamente, voltando a ocupar a presidência do Senado. Ficou lá por mais 4 anos.”
“Ele foi inocentado…” – deduziu De Gaulle.
“Não, General, não foi. O processo está no STF há mais de nove anos, mas acho que os ministros ainda não tiveram tempo de analisar.”

O General remexe-se na cadeira, e nosso Sérgio Garcia constata, satisfeito, que o entrevistado começa a se descontrair; e continua. Passa a relatar que no Brasil existem confederações de trabalhadores (sindicatos) que vivem – e bem – às expensas de contribuições compulsórias, e que investem os recursos que recebem na promoção de manifestações político-partidárias sem qualquer ligação com os objetivos dos trabalhadores que representam. “E tudo à luz do dia!”
O General, esforçando-se para compreender, tenta ajustar a informação ao seu modus pensandi: “mas os trabalhadores certamente se revoltarão e demitirão os dirigentes dos sindicatos”.
“Qual!”, debocha Alexandre Porto, “isso vem acontecendo há anos, e nunca vi qualquer associado lesado sequer esboçar uma reclamação contra essas entidades.” E acrescenta: “aliás, as manifestações que elas promovem geralmente não congregam trabalhadores sindicalizados, mas desocupados que são contratados para carregar faixas e desfilar com coletes vermelhos e que sequer se interessam pelos motivos dos protestos. E não são apenas os sindicalizados que sabem dessas artimanhas, todos sabem – cidadãos, políticos, mídia -, mas continuam fingindo tratarem-se de “manifestações” legítimas, espontâneas e representativas.

Sérgio olha para o entrevistado e nota que a expressão dele já não é carrancuda. Relaxou. Em seguida, percebe um princípio de sorriso nascendo naquela cara feiosa. É que Alexandre Ponte Preta passou a descrever nossos “movimentos sociais”, aqueles que foram criados para reivindicar dos governos em benefício de seus integrantes, mas que passaram a apoiar o Governo e protestar contra a Sociedade. Alexandre, que é Sérgio, conta que os movimentos se eternizaram, viraram fim em si mesmos e, hoje, praticam invasões e bloqueios de estradas como instrumentos de apoio aos partidos políticos da preferência de seus líderes. E tasca: “acredita que esses movimentos jamais foram responsabilizados ou incomodados pelo Judiciário ou pela Polícia, e que seus crimes de invasão e depredação de propriedades costumam ser meigamente apelidados de “ocupação” pela mídia (a mesma que chama favela de comunidade e fraude de pedalada)?” Sérgio vai falando e pensando: “será que no país dele – onde também existem protestos e baderna – meia dúzia de gatos pingados conseguiria incendiar ônibus e prejudicar milhares de pessoas bloqueando rodovias importantes, sem ser penalizada?”

Pela cara, De Gaulle mostra que desistiu de entender e insinua um sorriso, divertido, mas ainda conserva a compostura formal do estadista. Stanislaw Garcia o avalia e constata que o entrevistado ainda não está com o couro suficientemente amaciado. Decide avançar, e conta que o Brasil elegeu e reelegeu, eleição após eleição, um candidato que “rouba, mas faz”, além de inúmeros outros que apenas roubam. Corruptos notórios, cujas faltas todos conhecem (o Ministério Público e o Tribunal Superior Eleitoral também), mas que permanecem na vida pública – recebendo votos! – até morrerem de velhos.

O idoso General leva a mão à boca e tenta esconder o sorriso, porém o jornalista, implacável, percebe e continua a carga. Fala da ex-Presidente da República que, ao ver aplicado sobre si um dispositivo constitucional, alegou que foi vítima de golpe. Um golpe previsto na Constituição do país! E que ela, mesmo após um ano de idas e vindas ao STF e de defesas intermináveis perante TCU, Câmara e Senado, continuou dizendo: é golpe, é golpe, é golpe. E correu o mundo repetindo a mesma cantiga de grilo – é golpe – e pedindo sanções contra a própria nação.

De Gaulle não resiste e deixa escapar um som estranho, um muxoxo parecido com um riso enforcado, mas ainda mantém a pose. Alexandre pensa que já e hora de começar a entrevista e, enquanto fala, dá sinal para o operador de câmera.

“E o senhor sabia, General De Gaulle, que o nosso campeão de votos para o parlamento é um palhaço semi-analfabeto que mal consegue pronunciar uma frase e que nada produziu de relevante em seu primeiro mandato (os projetos dele – poucos – versavam basicamente sobre circos), mas que, mesmo assim, foi reeleito? E novamente com votação expressiva?”

A entrevista vai começar, mas o General, sem conseguir falar, sinaliza para o câmera com aquele conhecido gesto, o indicador cutucando a palma da mão. Pede tempo e sai da sala. Vai se recuperar de um incontrolável acesso de riso. Na volta, reafirmará que jamais disse aquela frase.
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