Na estrada, com Jack Kerouac

É sempre difícil indicar com precisão o que leva um livro a alcançar sucesso retumbante, de público e de crítica. E a tarefa não ficará menos árdua com o passar do tempo, mesmo após 60 anos de seu lançamento, como é o caso de On the road, de Jack Kerouac, um livro que foi sistematicamente recusado pelas editoras ao longo de mais de dez anos – assim como todas as demais obras de Kerouac, um escritor ignorado até então – para, imediatamente após publicado, ser aclamado como legítima obra de arte e ganhar ares de livro sagrado.
Apesar de basear-se em acontecimentos reais de sua própria trajetória, Jack Kerouac conseguiu edificar uma obra ficcional solta, sem amarras, utilizando linguagem crua e direta, e desenvolvendo uma narrativa absolutamente inovadora. On the road foi escrito como uma espécie de diário de viagem do personagem Sal Paradise (provavelmente o próprio Kerouac), mas com foco nas loucuras de seu ídolo e companheiro Dean Moriarty (personagem baseado em Neal Cassady, um amigo de carne e ossos do autor). Uma estória repleta de música, sexo, álcool e drogas, mas sem trama visível, tradicional. Um enredo que, assim como seus personagens, parece não trilhar o caminho da racionalidade, algo como um começo, um meio e um fim esperado – embora a narrativa em forma de diário queira remeter o livro para a estante dos romances de tempo histórico, e não psicológico.
Polêmico e desconcertante, não há dúvida que On the road exerceu influência generalizada sobre a juventude da segunda metade do Século XX; e foi além, chegando a ser apelidado de a bíblia da “geração beat”, um termo inventado pelo próprio Kerouac e jamais definido objetivamente. Além das inusuais características do romance – distantes das fórmulas consagradas -, talvez tenha sido o modus vivendi de seus personagens a cativar de modo tão arrebatador os jovens daquela época, notadamente os integrantes de movimentos como o punk e o hippie. Kerouac, entretanto, não admitia essa influência, e se irritava quando repórteres e críticos queriam atribuir-lhe o papel de guru de uma geração.
Jack Kerouac morreu bêbado e jovem, aos 47 anos, mas deixou várias obras de sucesso, nenhuma, todavia, com a força inovadora e revolucionária de On the road. Uma leitura necessária.

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Um comentário em “Na estrada, com Jack Kerouac

  • 01/06/2016 em 22:50
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    Durante minha juventude me encantei pela chamada geração BEATNIK e nomes como BUKOWSKI (principalmente) e BURROUGHS eram leituras de cabeceira, mas quando conheci KEROUAC, minha cabeça virou do avesso! Não encontrei em nenhum dos outros autores o carisma e “classe” para descrever o “lixo”, a “marginália”, tudo regado com excessos de sexo, álcool, drogas e jazz num prelúdio do famoso “sexo, drogas e rock’n’roll” que tomou o mundo anos depois… Fantástico! Fico feliz que tenha gostado da dica. Parabéns pela crítica!!!

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