Lazer na Paulista não é brincadeira!

Em uma cidade como São Paulo – com gente demais e parques de menos – uma das alternativas para permitir o lazer ao ar livre é a interdição de ruas em dias não úteis. E, obviamente, a Avenida Paulista – o cartão postal da cidade – não poderia ficar de fora.

A famosa avenida é o xodó dos paulistanos, espécie de síntese do que acontece na cidade, e eu, por morar ao lado dela, costumo chamá-la “meu quintal”, uma brincadeirinha – megalômana, por sinal -, mas nascida da comparação com quintais reais, do prazer de caminhar por lá, de passear entre roseiras (na Casa das Rosas), de ouvir o canto dos sabiás (no Parque Trianon) ou de observar goiabeiras e pitangueiras frutificando ao longo da avenida. Tenho-a como meu quintal, mas não sou ciumento e não me incomodo que todos a frequentem, mesmo que à bordo de seus automóveis barulhentos. Na verdade, acho até bacana que a avenida esteja sempre repleta nos dias de semana, e gosto ainda mais dos fins de semana, quando as pessoas a visitam apenas por diversão, e passeiam, descontraídas, brincando, correndo, equilibrando-se em skates e patins; jovens, idosos, crianças, cachorros, ciclistas, artistas de rua. Todos ocupando legitimamente seus espaços na mais democrática das avenidas. E eu, obviamente, não perco um domingo sequer. A costumeira corridinha pela manhã, com foco na saúde, e, à tardinha, um longo passeio sem foco algum, apenas deixando que o tempo esvaia-se, à toa, e esperando o sol se por. Poderia resumir minha relação com a Paulista emprestando o slogan daquela conhecida rede de lanchonetes: “amo muito tudo isso”. Mas não seria totalmente verdadeiro.

Sabemos que, mesmo em dias não úteis, não é lá muito fácil bloquear vias tão importantes para a fluidez do trânsito como a Paulista (se é que em Sampa dá para se usar o termo “fluidez” ligado a “trânsito”…). Por essa razão, sempre esperei que a operação batizada de “Ruas abertas” – na verdade, fechadas – fosse cercada de cuidados e executada com esmero, mas, infelizmente, não foi o que presenciei. Hoje, vários meses após o início da operação, ainda remanescem problemas básicos sem tratamento. Um exemplo? A comunicação. Difícil descobrir qualquer informação sobre horários, quais ruas transversais estarão bloqueadas e que rotas alternativas adotar. E, se perguntar diretamente à CET, a resposta será: “procure no site”. Eu procurei. E não encontrei.

Além da desinformação, outra questão negligenciada é o fluxo de veículos nas ruas transversais bloqueadas, aquelas que saem da Avenida Paulista ou que nela desembocam. Nessas ruas, carros de moradores e comerciantes locais – sem poder acessar ou cruzar a Paulista – precisam transitar na contra-mão até alcançar a rua desbloqueada mais próxima. Não seria preciso dizer à CET que os semáforos dessas ruas não foram preparados para receber veículos na contra-mão, seria? Pois é… Mas ainda não percebi em nossa Companhia de Engenharia de Tráfego intenção de designar agentes de trânsito para coordenar o fluxo de veículos nesses locais. Inconformado, num domingo desses interpelei um marronzinho na rua: “E se, ao trafegar na contra-mão, meu carro for abalroado por outro? Serei penalizado por estar na contra-mão?”; e a resposta veio na forma costumeira: “Não. A autorização para trafegar na contra-mão está no site.” Procurei no site e, de novo, não encontrei. Ali não há qualquer menção a ato normativo que autorize quem quer que seja a trafegar na contra-mão. E nem que houvesse. Não se trata apenas da autorização formal, mas do cuidado com a segurança dos motoristas e pedestres. É fundamental que a CET designe marronzinhos para orientar o tráfego em todas as ruas bloqueadas, sempre que forem bloqueadas.

Descaso semelhante pode também ser encontrado na organização dos fluxos e usos da própria via de lazer. Refiro-me aos ciclistas e às emissões sonoras. Como se sabe, a Avenida Paulista conta com uma ciclovia – aquela longa cicatriz vermelha que ocupou o lugar dos antigos canteiros – que, nos dias de lazer, recebe o auxílio de duas ciclofaixas demarcadas por cones, uma de cada lado. O uso dessas vias exclusivas é acompanhado por fiscais da prefeitura – um em cada esquina -, e tudo estaria bem se os ciclistas se limitassem ao grande espaço a eles demarcado; mas não é o que acontece. As bikes também circulam, impunemente, sobre áreas destinadas a pedestres e sobre calçadas, assustando quem passeia por ali e pondo em risco a segurança dos distraídos. Eu mesmo já tomei vários sustos. Sim, eu sei que boa parte do problema é de responsabilidade dos maus ciclistas, mas o estabelecimento de regras de uso da via e sua ampla divulgação ajudariam. Além, é claro, da fiscalização por parte dos coordenadores do “Ruas abertas”, o que, convenhamos, não seria nada difícil, haja vista que a Prefeitura já mantém dezenas de fiscais lá,quase sem ter o que fazer. Um pouquinho de atenção e boa vontade equacionariam o problema.

Quanto às emissões sonoras, a questão é cultural e, para ser sanada, precisaria da atuação enérgica do Município, tanto na regulamentação quanto na fiscalização. Em uma cidade barulhenta como a nossa, não dá para aceitar fontes adicionais de poluição sonora, ainda mais em locais destinados ao lazer. Já possuímos a Lei 3.688, de 1941, e a Lei do Psiu – uma das mais violadas de todos os tempos – e nem precisaríamos mais. Bastaria aplicá-las. Infelizmente, porém, a coordenação do “Ruas abertas” faz ouvidos moucos ao desrespeito e permite que microfones e caixas de som – que nem deveriam estar ali – sejam usados em volume muito superior ao tolerável. E a troco de nada, apenas para a satisfação de alguns poucos usuários sem-noção e o prejuízo da saúde auditiva de milhares de outros, que precisam interromper diálogos e tapar ouvidos ao passar pelos barulhentos (conheço gente que até já deixou de frequentar a Paulista aos domingos, por conta disso). Sem mencionar o inferno que deve ser para quem mora próximo.

E, para concluir, recordemos o final das tardes de domingo. Avenida liberada, veículos congestionando novamente as vias e pessoas caminhando pelas calçadas; ou tentando, já que camelôs e ambulantes irregulares, à vista de todos, tomam espaços e bloqueiam caminhos. Mas não são os únicos. Há também o batalhão de artesãos – cujo comércio foi anarquicamente liberado – e os artistas de rua (que seriam bem-vindos, se não se utilizassem de microfones e amplificadores de som). Quando a noite chega, o ar bucólico de fim de tarde dá lugar a um ambiente de fim de feira, malcheiroso e repleto de lixo espalhado por todos os cantos, deixando o paulistano ansioso para que a segunda-feira chegue logo – onde já se viu? – apenas para poder ter sua avenida de volta ao normal. Não precisaria ser assim, precisaria?

De novo, o problema está na falta de fiscalização para coibir o comércio irregular e na omissão da Prefeitura acerca dos artesãos, que atuam às centenas, sem qualquer controle. De se registrar, porém, que um pouquinho de urbanidade por parte dos frequentadores da Paulista não faria mal algum, afinal, não dá para cobrar ação do poder público quando se viola até as regras mais básicas de convivência. Jogar lixo no chão é comportamento de povo mal educado – coisa que nós não somos – e poderia ser corrigido facilmente se a Prefeitura alocasse maior número de lixeiras na avenida aos domingos e empreendesse campanhas de conscientização.

Tudo ruim? Claro que não! Basta olhar para a metade cheia do copo – que, aliás, não é apenas metade, mas bem mais.

O fato é que minha querida Avenida Paulista, a imponente e agitada via dos dias úteis, já se firmou como sinônimo de descontração e lazer aos domingos, apesar das mazelas geradas pelo descaso de quem dela deveria cuidar. E, acolhedora, vai desafiando aquela máxima da gestão que diz: “nenhum bom projeto resiste à uma implantação descuidada”. Resiste sim. Aí está a prova.

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