Fidel morreu, mas o Jurassic Park já anda sozinho

Alguns analistas afobados têm dito que Cuba conhecerá uma nova Era com a morte do seu eterno Comandante em Jefe, Fidel Alejandro Castro Ruz. Será? Talvez o “Jurassic Park” em que a ilha foi transformada pelo Castrismo possa até experimentar transformações no futuro – aliás, por conta da penúria econômica, algumas mudanças já vêm ocorrendo, devagarzinho -, mas isso não será devido ao desaparecimento do velho ditador. O modo de governar que o manteve intocável no comando já foi há décadas assimilado pelos demais componentes do PCC – Partido Comunista de Cuba – e prescinde de sua presença. Mantendo o discurso da revolução eterna, o partido único jamais deixou qualquer brecha que pudesse enfraquecê-lo e, obviamente, não permitirá ações de abertura propostas por não integrantes de seus quadros. Raul, outro “revolucionário” de primeira hora, continuará tocando o partido da mesma forma que seu irmão, e nada faz pensar que – quando for se juntar a ele – o seu substituto agirá diferentemente. Além do mais, depois de quase seis décadas submetido ao implacável domínio do Castrismo, o povo talvez até sinta medo de viver sem seu líder, ainda que descontente com as condições precárias de sobrevivência que é obrigado a suportar. Absolutamente domesticado pelos anos de confinamento, não encontra ânimo nem possibilidade de articular qualquer movimento opositor ao regime.

Que não existe povo dominado, e sim povo que se deixa dominar, é certo. Porém, antes de condenarmos a docilidade do povo cubano frente à repressão e ao regime de prisão domiciliar que lhe é imposto, não devemos nos esquecer de como essa docilidade foi construída. Uma das primeiras ações do governo revolucionário de Fidel Castro foi extinguir o analfabetismo, ação que afirma ter levado a cabo em tempo recorde, algo em torno de dois anos. A partir de lá, toda a população ganhou condições de “informar-se politicamente”; nos livros que a própria revolução escrevia e nos jornais governamentais que a propagandeavam. Sem outras fontes de informação – já que os meios de comunicação passaram às mãos do governo e todos os livros não oficiais foram confiscados e destruídos – os cérebros das novas gerações de cubanos foram moldados para se engajar aos ideais revolucionários, e se tornaram incapazes de formar uma mentalidade política crítica. Deixando claro que “novas gerações” foi apenas força de expressão, já que em Cuba qualquer um que não seja sexagenário jamais conheceu um governo sem Fidel. Isso sem mencionar a repressão rotineira à livre expressão, o que, depois de tantos anos, já nem é visto como repressão.

Ou seja, se alguma mudança realmente vier a ocorrer em Cuba, será por iniciativa exclusiva do PCC, sem participação popular. A morte de Fidel não deixou qualquer vácuo de comando no governo ditatorial, nem abriu espaços para aventuras democráticas. Ao contrário.

Fidel será cremado, e sua imagem forjada de herói, reforçada com mais monumentos erigidos em sua homenagem. E a revolução que nunca termina ganhará novo fôlego.

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