Crise na imprensa esportiva!

O time de futebol perdeu pela terceira vez consecutiva e, ao final da transmissão do jogo, o narrador pergunta ao comentarista: “Podemos dizer que o time está em crise?”. O comentarista responde, do alto de sua autoridade de portador do microfone: “Não, ainda não. Mas, se perder o clássico da próxima rodada, aí, sim, entrará em crise.” Momentos depois, na coletiva de imprensa, um repórter faz a mesma pergunta ao treinador do time perdedor. A resposta, obviamente, é uma negativa veemente. E nós, simples ouvintes e assimiladores de informação, imaginamos a tal crise como uma confissão de fracasso, um limiar que, depois de ultrapassado – ou simplesmente admitido – passe a atuar como espécie de areia movediça, a puxar o time em crise inexoravelmente para o fundo do poço, prendendo-o em uma espiral de decadência difícil de escapar. Desliguei a TV e, de repente, peguei-me pensando nos vários significados da palavra crise. Fui ao dicionário confirmar, e voltei ainda mais intrigado.

Se a palavra crise fosse usada no futebol com a mesma conotação das crises que ocorrem na Economia, por exemplo, os limiares de começo e fim não seriam tão visíveis (ou, pelo menos, não seriam tão visíveis aos comentaristas esportivos), já que, na Economia, os movimentos identificadores da crise são amplos, genéricos e de longo prazo. Se, de outra forma, a palavra fosse usada no sentido das crises individuais – mudança brusca de estado de saúde, crise de choro, crise epiléptica -, a crise seria mais facilmente identificável, e não precisaria de uma série de jogos para isso. Crise de gols seria um bom exemplo. O time viveu uma crise de gols durante o jogo, só saindo dela aos 45 do segundo tempo. Ou, o time vive uma crise de vitórias, e, quando ganhar um jogo, sairá dela. Mas não é isso. Não são esses os significados que a imprensa esportiva dá às crises. A crise dela – padrão areia movediça, atestado de incompetência ou xingamento – parece ser coisa só do futebol, algo ainda não capturado pelos dicionários da língua portuguesa.

Porém, o que mais acho graça na citações das crises futebolísticas é a definição objetiva e autoritária de limiares aleatórios e subjetivos. Se perder o próximo jogo, entrará em crise! Se vencer, sairá da crise! Mais ou menos como a definição de goleada. Um a zero: gol; dois a zero: gol; três a zero: gol; quatro a zero: goleada! Só vale se for de quatro. Quatro a um? Goleada. A dois, goleada também. Lógica? Para quê? Quem definiu? Ninguém sabe, ninguém viu. E os torcedores saem repetindo como papagaios. “Ouvimos na TV!” E entram em crise se alguém sugere que seu time levou uma goleada de três. “Não foi! Goleada? Só de quatro!”

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