Cartão amarelo para os telejornais

Ainda não esgotei minha capacidade de me decepcionar com o jornalismo televisivo. Não, desta vez não me refiro ao viés que se dá a reportagens pró ou contra governos, à distorção de fatos para o lado politicamente correto ou à relevância forjada de temas irrelevantes. A decepção vai muito além, e vem da observação de detalhes desanimadores na comunicação de repórteres e apresentadores.

Sempre esperei dos profissionais que se formaram em boas faculdades – coisa cada vez mais difícil – que, no exercício de suas profissões, se interessassem por desenvolver intelectualmente aqueles com quem lida e que não tiveram a mesma oportunidade. Minha expectativa fica ainda maior quando esses profissionais empunham microfones ou se posicionam à frente de teleprompters em bancadas de telejornais. Sim, eu sei que ensinar não é atribuição jornalística, nem consta do juramento de formatura dos jornalistas, mas penso que a elevação do nível de conhecimento do telespectador viria em benefício do próprio jornalismo, vez que facilitaria o entendimento da informação. E reconheço que vários jornalistas até tentam “traduzir” a informação, usando termos acessíveis aos leigos, mas nem sempre obtém êxito. É o caso, por exemplo, das medidas de área.

Metros quadrados, ares, hectares, acres ou alqueires não são da intimidade da maioria da população brasileira, mas isso não invalida sua utilização quando se pretende informar acerca de superfícies. Porém, não é o que tenho visto. Se, por exemplo, a notícia for sobre um incêndio na floresta ou o alagamento provocado por uma barragem, a área será citada utilizando-se uma unidade oficial de medida de superfície e, em seguida, invariavelmente, virá a comparação com campos de futebol. “O fogo já destruiu 50 hectares de floresta, uma área equivalente a 80 campos de futebol”; ou “a barragem, depois de construída, alagará 1.200 hectares de terra produtiva, o equivalente a 2.000 campos de futebol”. Não sei de onde surgiu essa comparação grotesca, mas deduzo que tenha sido adotada para dar ênfase aos fatos informados e para facilitar o entendimento da notícia pelo brasileiro, um povo que só consegue raciocinar em termos de samba ou futebol (pelo menos na visão das faculdades de jornalismo).

O problema é que comparar uma superfície a campos de futebol não ajuda a informar, mas a desinformar; e a emburrecer. Uma comparação indigna de bons jornalistas. Algo como se um médico, depois de bem formado, passasse a receitar simpatias e sessões de descarrego a seus pacientes. A propósito, um jornalista esportivo jamais usaria essa comparação, já que, por dever de ofício, conhece a Regra número 1 do Livro de Regras do Futebol, aquela que trata dos tamanhos possíveis para campos oficiais. Isso mesmo, tamanhos, no plural. Um campo de futebol pode ter vários tamanhos, desde 90 m x 45 m até 120 m x 90 m. Ou seja, quando um jornalista traduz uma medida de área para campos de futebol genéricos, ele, além de revelar o mau conceito que faz de seus espectadores, revela também a própria ignorância. A qual tamanho de campo ele se refere? Não seria melhor apenas citar a superfície em sua medida padrão – hectares, por exemplo – e deixar ao telespectador o entendimento? Ou, se acreditar que o jornal é visto por pessoas incultas, explicar o que significa a medida de área utilizada e ilustrar utilizando medidas de conhecimento geral – o metro linear, por exemplo? Se assim o fizesse, a cada notícia o telespectador iria adquirindo conhecimento e evoluindo. E se tornando mais apto a compreender o mundo que o cerca. “O fogo já consumiu 50 hectares de floresta. Como um hectare equivale a 10.000 m2, o fogo destruiu a vegetação de uma área equivalente a um terreno de 715 m de comprimento por 700 m de largura”. Pronto! O jornalista teria gasto 5 segundos a mais para dar a notícia, mas teria transmitido informações realmente inteligíveis e, de quebra, ajudado na educação de seus espectadores. Não seria esperar demais, seria?

Vou continuar esperando.

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