África do Sul – viagem

Quando minha mulher me propôs uma parada estratégica na África do Sul, em nossa viagem planejada para a Austrália, confesso que fiquei um tanto preocupado. É que todas as informações – poucas – que eu tinha de lá davam conta de altíssimos índices de violência, e eu não estava disposto a fazer parte dessas estatísticas. Procurei por mais informações, li bastante, e acabamos decidindo tocar em frente o projeto, afinal somos brasileiros e, infelizmente, violência por aqui também não é novidade. Definimos em 10 dias nossa estada, 4 dias em Johannesburg, 2 em Hoedspruit – para o indispensável safári – e outros 4 em Cape Town. Malas prontas para viagem, cujo objetivo final eram Austrália e Nova Zelândia, partimos para a primeira escala: Johannesburg.

A maior cidade da África do Sul (com população estimada em aproximadamente 8 milhões de pessoas em sua região metropolitana) não possui muitos atrativos turísticos. Para nos deslocarmos em nossos passeios e visitarmos bairros interessantes, como Sandton e Rosebank, utilizamos seu reduzido e caro sistema de trens urbanos – o Gautrain. Caminhamos muito pelo centro da cidade e, obviamente, fomos a Soweto e ao Museu do Apartheid, os pontos altos da visita. Violência? Creio que deve haver, mas não a vimos. Concluímos a primeira parte de nossa viagem em clima de absoluta tranquilidade e, depois, num vôo de pouco mais de hora e meia, chegamos a Hoedspruit, local do nosso safári.

Hospedamo-nos no Naledi Enkoveni Lodge – e aqui é importante fazer uma revelação: não me lembro de ter sido melhor atendido em nenhum outro hotel em que me hospedei até então, por mais estrelado que fosse. Como estávamos em baixa temporada, o lodge tinha poucos hóspedes, o que tornou o serviço ainda mais exclusivo. Gerente e staff solícitos e sempre disponíveis, receptividade, gentileza, atenção a cada hóspede e a cada detalhe. Tudo absolutamente perfeito. Isso sem mencionar o principal objetivo da ida até lá, os game-drives (o nome que eles dão aos safáris motorizados). Com guias simpáticos, acolhedores e bem dispostos, participamos de 4 games e pudemos ver uma grande variedade de animais, inclusive os mais perigosos, apelidados “big-five” (leão, leopardo, búfalo, rinoceronte e hipopótamo). Sensacional! Violência? Nem dos animais. Após a missão cumprida, e com uma pontinha de tristeza, despedimo-nos do lodge e tomamos o avião para Cape Town, essa sim, uma cidade turística.

Capital legislativa do país, Cape Town e sua região metropolitana possuem população estimada em 3,5 milhões de habitantes, o que a torna a segunda maior cidade da África do Sul. Em beleza e atrativos, porém, é certamente a primeira. E é uma cidade limpa, organizada, bem cuidada. Usamos largamente o ônibus City Sightseeing para percorrer os pontos turísticos importantes, inclusive para visitar a mais antiga vinícola do país, a Groot Constantia, ir até o mundialmente famoso Cabo da Boa Esperança e à Boulders Beach, observar pinguins. Muito prático. Também conhecemos um pouco da História recente do país visitando Robben Island, onde Nelson Mandela permaneceu preso por 18 anos. Depois, visitamos um paraíso chamado Kirstenbosch Botanic Gardens, um lindíssimo e imperdível jardim botânico. E em todos os dias gastávamos alguns momentos passeando por V&A Waterfront, uma das áreas mais belas da cidade, repleta de restaurantes, bares e lojas. Mas houve um ponto negativo em nossa passagem por Cape Town: só pudemos ver de longe seu ícone mais famoso, a Table Mountain. Planejamos por duas vezes subir até o topo, mas em ambas a montanha estava fechada para visitas, por conta da neblina. Em compensação, foi em Cape Town que tivemos a experiência que mudou definitivamente nossa visão sobre o povo sul africano, e pretendo gastar todo o próximo parágrafo para contá-la a você. A propósito, o que você esperaria do humor de uma atendente de guichê de venda de passagens e do comportamento de um motorista de ônibus de linha, em uma cidade com mais de 3 milhões de habitantes?

Na chegada a Cape Town, sabíamos apenas o nome do nosso hotel e sua localização, mas não havíamos planejado como iríamos até ele. Ao sairmos do aeroporto em busca de um táxi, nos deparamos com um terminal de ônibus urbano. Como era feriado na cidade e havia pouco movimento de pessoas, decidimos nos aventurar, mesmo sem conhecer o sistema de transporte público local. Fomos até o terminal, olhamos as rotas em um cartaz colado na parede, checamos o mapa no Google e escolhemos a parada que consideramos a mais próxima do nosso hotel. Em seguida, fomos ao guichê e perguntamos à atendente, uma senhora de uns 60 anos, o que fazer para chegar lá. A mulher começou a nos explicar, mas deve ter percebido que estávamos com dificuldades de entender o seu inglês. Então, ela se levantou, saiu do guichê, veio até nós e, sorridente, explicou-nos – apontando o mapa na parede e desenhando um esquema em um pedaço de papel – como fazer para alcançar o ponto desejado. Encantados, compramos os bilhetes e nos dirigimos ao ônibus que esperava, estacionado e de portas abertas, o horário da partida. Acomodamo-nos e, logo em seguida, o motorista chegou para dar início à viagem. Ao ver-nos – e provavelmente desconfiar que éramos turistas -, o homem veio até nós e nos perguntou para onde estávamos indo. Eu e minha esposa respondemos simultaneamente, ela, dizendo o nome do hotel, eu, o nome do ponto de ônibus. O motorista fez cara de confuso e voltou a perguntar: vocês querem ir para o hotel ou para o ponto de ônibus? Confirmamos que nos dirigíamos ao hotel e que pensamos que aquele ponto de ônibus seria o mais próximo dele. Ele nos disse que não era, que havia outro melhor e que não nos preocupássemos, pois ele nos apontaria o local ideal para descer. Agradecemos a oferta e iniciamos a viagem, incrédulos em tamanha gentileza. E o ônibus rodou, rodou, até alcançar o ponto final, sem que o motorista se manifestasse. Então o homem, após estacionar e desligar o veículo, veio até nós, agarrou uma de nossas malas e foi saindo com ela, convidando-nos a segui-lo. Imaginei que ele fosse sair do ônibus apenas para apontar a direção que deveríamos tomar para o hotel, mas ele continuou andando, arrastando a mala. Comecei a ficar preocupado. Chegamos à calçada, e eu pensei: agora ele vai apontar a direção do hotel e nos despedir. Mas o homem continuou também pela calçada, andando rápido e puxando a mala. Eu – com a outra mala – e minha mulher, em seu encalço. Sem parar de caminhar, o motorista perguntou-nos de onde éramos. Dissemos, e ele seguiu. Enquanto caminhava, apontou o nosso hotel, agora visível e indicado por uma grande placa a um quarteirão de distância, mas só parou quando chegamos defronte o hall. Então o homem orientou-nos a fazer o caminho inverso quando fôssemos voltar ao aeroporto e entregou nossa mala ao mensageiro do hotel, que chegava, solícito. Sem saber como proceder diante de tanta gentileza, pensei em recompensar o motorista com uma gorjeta, mas não foi possível. Parecendo notar minha intenção, ele afastou-se rápido, sorrindo e despedindo-se com um aceno. De onde estava pude apenas gritar de longe um agradecimento, e passei o resto do dia sem acreditar no que tinha acontecido. Seria possível, numa cidade grande, existir pessoas tão solícitas e desinteressadas? Aliás, ainda agora, enquanto escrevo, a história me parece surreal. E mais surreal ainda se comparada às informações negativas que eu tinha sobre a África do Sul. Não, não duvido das estatísticas que apontam o país como campeão mundial de violência, mas, por mais que tente, não as consigo encaixar em nenhum dos lugares que visitamos, nem as guardar na memória, completamente tomada por imagens adoráveis, pelas experiências vividas e pela hospitalidade dos sul-africanos.

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3 comentários em “África do Sul – viagem

  • 20/08/2017 em 20:13
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    Que linda narrativa Osmar. Me senti viajando com vocês, diante da riqueza de detalhes citados. Com certeza um dia irei conhecer esse País/ cidades e passeios maravilhosos.
    Que bom que deu tudo certo, que as portas estavam todas abertas, tornando a viagem inesquecível. É como ouvi certa vez: ” … quando os anjos viajam, o sol acompanha..” abençoados vocês foram! Abs

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  • 21/08/2017 em 22:54
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    Adorei viajar novamente na viagem de vcs.
    A África é um lugar incrível e sempre terei boas recordações de lá.

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  • 22/08/2017 em 13:13
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    Osmar, gostei muito do seu relato!
    Muitas vezes só relatamos os momentos que não gostamos.

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