A metamorfose de Kafka: barata ou besouro?

“Quando certa manhã Gregor Samsa despertou, depois de uma noite mal dormida, achou-se em sua cama transformado em um monstruoso inseto.”

Assim começa o conto “A metamorfose”, de Franz Kafka, escrito e publicado há mais de um século. A partir dessa revelação surpreendente, o autor passa a descrever – com enorme naturalidade – a vida de Gregor Samsa (pronuncia-se Zamza) após a metamorfose. Já o leitor, recuperado do impacto inicial e aliviado por estar na vida real, seguro e não sujeito ao absurdo fenômeno, segue com a leitura e assume o drama vivido pelo protagonista, sempre na expectativa de que algo venha desfazer a transformação e libertá-lo.
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Difícil não tentar deduzir o que se passava na cabeça do escritor ao criar tal história e, por isso, a busca por eventuais simbolismos escondidos em personagens e situações torna-se algo natural. Em decorrência dessas buscas, muitas interpretações do conto já vieram à baila. Crítica social, realidade distorcida, conflito do homem com a burocracia, críticas ao capitalismo ou às rotinas de trabalho, paralelos com dramas psíquicos da sociedade, e por aí afora. Temas também foram imaginados e atribuídos ao livro, tais como crise existencial, desesperança do homem, pessimismo, solidão, impotência ou fuga. Têm palpites para todos os gostos.

Aliás, até o inseto em que Gregor se transforma gera opiniões discordantes. Em nenhum momento o autor dá nome ao bicho, mas alguns leitores dizem tratar-se de um besouro (embora não haja referência a um par de asinhas delicadas, comuns aos besouros). De outro lado, uma enorme maioria de palpiteiros garante tratar-se de uma barata, opinião que poderia ser facilmente descartada com uma leitura mais atenta de algumas pistas deixadas pelo autor: o inseto tem pernas curtas e é convexo de ambos os lados, diferentemente das baratas – pelo menos das que eu tive o desprazer de conhecer -, que são achatadas e possuem pernas longas.

Eu particularmente, depois de ler duas vezes o livro – em épocas distintas -, fiquei mais propenso a adotar a imagem do besouro e a enxergar no texto uma crítica bem-humorada à “insetização” do trabalhador e à precariedade das relações humanas, onde gratidão e apreço – ou até o amor – podem não resistir aos obstáculos interpostos pela vida.

Daqui a alguns anos pretendo voltar a ler esse mesmo conto. Talvez o veja com outros olhos…

Frantisek Kafka (Franz Kafka) nasceu em Praga, capital da atual República Tcheca, em 03 de julho de 1883. Judeu – que certa vez declarou-se ateu -, ganhou a vida como funcionário de empresas seguradoras e, nas horas vagas, escrevia. Publicou poucas obras em vida e, já doente e às portas da morte, transferiu seus escritos ao melhor amigo, com o pedido de que fossem queimados, sem publicar. O amigo, felizmente, não atendeu ao pedido. Kafka faleceu aos 40 anos de idade, vítima de tuberculose.

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